Ação penal contra médico: o que é e como se defender

Por Equipe DoctorJur · Atualizado em · 7 min de leitura

Resposta rápida

A ação penal é o processo criminal que começa quando o juiz recebe a denúncia do Ministério Público contra o médico, em geral por lesão corporal ou homicídio culposo. A defesa tem 10 dias para responder à acusação depois da citação. O processo pode terminar em absolvição, em acordo ou em condenação, que nos crimes culposos costuma ser convertida em penas alternativas.

Ser citado em uma ação penal é um dos momentos mais difíceis da carreira de um médico. A partir daqui você é réu, e o processo tem prazos curtos que não admitem improviso. Mas é importante manter a perspectiva: a ação penal é o lugar em que a acusação precisa provar o que alega, com direito pleno de defesa, e em crimes culposos a lei prevê várias saídas antes e depois de uma eventual condenação.

O que é a ação penal

A ação penal começa quando o Ministério Público oferece uma denúncia, normalmente com base em um inquérito policial, e o juiz a recebe. Nos crimes de ação privada, como os crimes contra a honra, a acusação é feita pela própria vítima, por meio de queixa-crime.

Em casos médicos, as acusações mais comuns são de crimes culposos, atribuídos a negligência, imprudência ou imperícia:

  • Lesão corporal culposa (art. 129, § 6º, do Código Penal): detenção de 2 meses a 1 ano. Por ser de menor potencial ofensivo, corre no Juizado Especial Criminal e depende de representação da vítima.
  • Homicídio culposo (art. 121, § 3º): detenção de 1 a 3 anos. A ação é pública incondicionada, ou seja, o processo segue mesmo que a família desista.

As penas aumentam em um terço se houver inobservância de regra técnica da profissão ou falta de socorro imediato. Os crimes culposos são julgados por um juiz. O Tribunal do Júri só entra em cena quando a acusação é de crime doloso contra a vida, como nos casos em que se alega dolo eventual.

O que isso significa para você

  • A acusação precisa provar a culpa. Não basta um resultado ruim: é preciso demonstrar que a sua conduta violou o dever de cuidado e que essa violação causou o dano.
  • A perícia costuma decidir o caso. Laudos do IML e pareceres técnicos têm peso central, e a defesa pode indicar um assistente técnico.
  • Há alternativas à condenação. Dependendo da pena prevista, o processo pode ser suspenso ou encerrado por acordo.
  • Uma condenação tem efeitos fora da esfera penal. Ela torna certa a obrigação de indenizar a vítima, e o juiz pode fixar um valor mínimo de reparação na própria sentença. O CRM também pode usar as provas do processo.
  • Uma absolvição também. Se a sentença concluir que o fato não existiu ou que você não participou dele, isso vale para o CRM e impede a condenação na Justiça cível pelo mesmo fato. Absolvições por falta de provas não têm esse efeito.
  • A família pode participar. A vítima ou seus familiares podem se habilitar como assistentes de acusação, com advogado próprio.

Como funciona, passo a passo

  1. Denúncia e recebimento. O juiz analisa se a denúncia tem justa causa. Se receber, manda citar você.
  2. Resposta à acusação. Você tem 10 dias a partir da citação para apresentar a resposta escrita, com os argumentos da defesa, os documentos e o rol de testemunhas (até 8 no procedimento comum ordinário).
  3. Absolvição sumária. Depois da resposta, o juiz pode absolver você de imediato se ficar claro, por exemplo, que o fato não é crime.
  4. Audiência de instrução. São ouvidos, nesta ordem: a vítima ou os familiares, as testemunhas de acusação, as de defesa e os peritos. Você é interrogado por último, e tem direito de permanecer calado.
  5. Alegações finais, orais ou por escrito.
  6. Sentença. O juiz absolve ou condena e, na condenação, fixa a pena.
  7. Recurso. A apelação deve ser interposta em 5 dias, com as razões apresentadas em 8 dias. Enquanto houver recurso, a condenação não é definitiva.

As alternativas ao processo

  • Composição e transação penal, no Juizado Especial, para a lesão corporal culposa. Um acordo de reparação com a vítima, homologado pelo juiz, encerra o caso.
  • Acordo de não persecução penal (ANPP), em geral proposto antes da denúncia, para crimes com pena mínima inferior a 4 anos. Exige confissão formal.
  • Suspensão condicional do processo, quando a pena mínima não passa de 1 ano. O processo fica suspenso de 2 a 4 anos, sob condições, e é extinto se elas forem cumpridas, sem confissão nem condenação. O aumento de pena por inobservância de regra técnica pode impedir esse benefício.

As penas possíveis

Nos crimes culposos, qualquer que seja a pena aplicada, a prisão pode ser substituída por penas restritivas de direitos, como prestação de serviços à comunidade ou prestação pecuniária. Quando o crime é cometido no exercício da profissão com violação dos deveres a ela inerentes, uma das penas possíveis é a proibição temporária do exercício da profissão.

A punição também prescreve. O prazo depende da pena: antes da sentença, ela prescreve em 8 anos no homicídio culposo e em 4 anos na lesão corporal culposa, contados do fato e com interrupções previstas em lei, como o recebimento da denúncia. Depois da sentença, o prazo passa a ser calculado pela pena efetivamente aplicada.

O que fazer agora

  1. Anote a data da citação. Os 10 dias para a resposta à acusação começam a correr a partir dela.
  2. Contrate um advogado criminalista, de preferência com experiência em casos médicos, se ainda não tiver um.
  3. Obtenha cópia integral do inquérito e da denúncia, incluindo os laudos periciais.
  4. Reúna provas técnicas: prontuário, protocolos, literatura médica, escalas e registros do atendimento. Você pode usar o prontuário na própria defesa, preservando o sigilo do paciente (art. 89, § 2º, do Código de Ética Médica).
  5. Defina as testemunhas: colegas, equipe de enfermagem e outros profissionais que acompanharam o atendimento.
  6. Escolha um assistente técnico da sua especialidade para analisar os laudos e acompanhar as perícias.
  7. Comunique o seu seguro de responsabilidade civil, se tiver. Algumas apólices cobrem a defesa criminal.

O que evitar

  • Não perca o prazo da resposta à acusação. Sem ela, o juiz nomeia um defensor para apresentá-la.
  • Não procure a família da vítima nem as testemunhas para falar sobre o caso.
  • Não comente o processo nas redes sociais ou com a imprensa sem orientação.
  • Não altere nem complemente documentos do atendimento.
  • Não aceite um acordo sem avaliar os efeitos no CRM e na ação cível, especialmente quando ele exigir confissão.

Como um advogado pode ajudar

  • Contestar a denúncia na resposta à acusação e buscar a absolvição sumária quando cabível.
  • Discutir a perícia, com quesitos, assistente técnico e pedido de esclarecimentos aos peritos.
  • Conduzir a audiência, inquirindo as testemunhas e preparando você para o interrogatório.
  • Avaliar acordos e benefícios, como transação penal, ANPP e suspensão condicional do processo.
  • Trabalhar a pena, se houver condenação, buscando a substituição por penas alternativas e evitando a proibição do exercício profissional.
  • Recorrer ao tribunal e acompanhar os prazos de prescrição.
  • Coordenar a defesa com o processo no CRM e a ação de indenização. Veja os guias sobre processo ético-profissional e ação indenizatória.

Perguntas frequentes

Médico pode ser preso por erro médico?

Nos crimes culposos, como lesão corporal e homicídio culposo, as penas são de detenção, e a lei permite substituir a prisão por penas restritivas de direitos, qualquer que seja a pena aplicada. Por isso, a prisão efetiva por erro médico culposo é incomum.

Qual é o prazo para responder a uma ação penal?

São 10 dias contados da citação para apresentar a resposta à acusação, com documentos e rol de testemunhas.

A família pode desistir do processo criminal?

No homicídio culposo, não: a ação penal é pública incondicionada e o Ministério Público segue com o caso. Na lesão corporal culposa, a ação depende de representação da vítima, e um acordo de reparação homologado pelo juiz encerra o caso.

O que é suspensão condicional do processo?

É um benefício para crimes com pena mínima de até 1 ano. O processo fica suspenso de 2 a 4 anos, sob condições como comparecer periodicamente em juízo e reparar o dano. Cumpridas as condições, o caso é extinto sem condenação e sem confissão.

Uma condenação criminal me impede de exercer a medicina?

Não automaticamente. Mas, quando o crime é cometido no exercício da profissão com violação dos deveres a ela inerentes, a pena pode incluir a proibição temporária de exercer a profissão. O CRM também pode abrir processo ético pelo mesmo fato.

Se eu for absolvido na Justiça, o processo no CRM acaba?

Só se a sentença concluir que o fato não existiu ou que você não participou dele. Absolvições por falta de provas ou porque o fato não é crime não impedem o CRM de julgar a questão ética.

Quanto tempo leva uma ação penal?

Varia bastante conforme a vara, a complexidade da perícia e os recursos. É comum levar alguns anos entre a denúncia e a decisão definitiva.

Fontes

  • Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940): arts. 18, 44, 47, 56, 91, 109, 121 e 129.
  • Código de Processo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/1941): arts. 28-A, 66, 268, 386, 387, 396 a 403, 593 e 600.
  • Lei nº 9.099/1995: Juizados Especiais Criminais (arts. 74, 76, 88 e 89).
  • Resolução CFM nº 2.306/2022: Código de Processo Ético-Profissional (art. 7º).
  • Resolução CFM nº 2.217/2018: Código de Ética Médica (art. 89).

Conteúdo informativo, revisado em 30 de setembro de 2026. Não substitui a orientação de um advogado para o seu caso concreto.