Médico PJ em hospital ou clínica: o que observar no contrato

Trabalhar como pessoa jurídica pode ser vantajoso, mas o contrato define riscos importantes. Veja as cláusulas que merecem atenção, os cuidados éticos e o debate sobre vínculo de emprego que está no STF.

Por Equipe DoctorJur · · 3 min de leitura

Muitos hospitais e clínicas contratam médicos como pessoa jurídica (PJ), para plantões, ambulatório ou procedimentos. Para o médico, isso pode significar menos tributos do que como pessoa física. Mas o contrato costuma vir pronto, e algumas cláusulas transferem ao médico riscos que deveriam ser da instituição.

O que precisa estar claro no contrato

  • Escopo: quais serviços, em quais setores, com qual carga horária ou número de plantões.
  • Remuneração: valor por plantão, por hora ou por produção; como são feitos os repasses de convênios; prazo de pagamento; tratamento das glosas; reajuste.
  • Substituições: se você pode indicar outro médico para cobrir um plantão e quem paga por isso.
  • Estrutura e equipe: o que a instituição fornece (equipamentos, insumos, enfermagem) e quem responde por falhas dessa estrutura.
  • Responsabilidade e seguro: se o contrato exige seguro de responsabilidade civil, de quem é o custo e como as partes se defendem em processos de pacientes.
  • Exclusividade e não concorrência: se há restrição para atender em outros lugares, por quanto tempo e em qual região.
  • Prontuários e dados: quem guarda os prontuários e como fica o acesso depois do fim do contrato.
  • Prazo e rescisão: aviso prévio, multas e o que acontece com pacientes em acompanhamento.

Cuidados éticos

O Código de Ética Médica proíbe algumas práticas comuns em contratos, mesmo que estejam escritas:

  • receber remuneração ou vantagem por encaminhamento de pacientes (art. 59);
  • ter os honorários condicionados ao resultado do tratamento (art. 62);
  • cobrar do paciente atendido em serviço público (art. 65);
  • interferência da instituição nas escolhas técnicas por interesses financeiros (art. 20).

O diretor técnico da instituição também responde, perante o CRM, pelas condições de trabalho e pelos meios necessários ao atendimento.

O risco de vínculo de emprego

A contratação de médicos como PJ é lícita em muitas situações. O risco surge quando, na prática, a relação tem as características de um emprego: subordinação (ordens, controle de horário, punições), pessoalidade (você não pode ser substituído), habitualidade e remuneração fixa. Nesses casos, a Justiça do Trabalho pode reconhecer o vínculo.

O tema está em discussão no Supremo Tribunal Federal (Tema 1.389 da repercussão geral), que vai definir os limites da contratação de profissionais como pessoa jurídica. Até a decisão final, cada caso depende de como a relação funciona no dia a dia. Por isso, o contrato deve refletir uma prestação de serviços real, com autonomia técnica e de agenda.

Questões tributárias

  • Simples Nacional: médicos podem pagar a partir de 6% sobre o faturamento se a folha, incluindo pró-labore, for de pelo menos 28% da receita (o chamado fator R). Abaixo disso, a alíquota inicial é de 15,5%.
  • Distribuição de lucros: desde 2026, valores acima de R$ 50 mil por mês pagos pela mesma empresa à mesma pessoa física têm retenção de 10% de imposto de renda.
  • Nota fiscal e ISS: confira as regras do município da sua empresa e do local da prestação.

Veja o guia sobre planejamento tributário para médicos.

Antes de assinar

  1. Leia o contrato inteiro, incluindo anexos, regimento interno e tabelas.
  2. Compare o que está escrito com o que foi combinado verbalmente.
  3. Peça ajustes por escrito: muitas cláusulas são negociáveis.
  4. Peça para um advogado revisar os pontos de responsabilidade, exclusividade e rescisão.

Veja o guia sobre contratos médicos.

Perguntas frequentes

Trabalhar como PJ em hospital é legal?

Sim, em muitas situações. O problema surge quando a relação tem, na prática, subordinação, pessoalidade, habitualidade e salário fixo, o que pode levar ao reconhecimento de vínculo de emprego. O tema está em julgamento no STF (Tema 1.389).

O hospital pode exigir que eu tenha seguro de responsabilidade civil?

Pode prever isso no contrato. Vale negociar quem paga o seguro e como as partes se organizam se um paciente processar o médico e a instituição pelo mesmo fato.

Posso ser proibido de trabalhar em outros hospitais?

Cláusulas de exclusividade ou não concorrência só se sustentam se forem razoáveis em tempo, território e escopo. Restrições amplas demais, que impedem o exercício da profissão, podem ser questionadas.

Conteúdo informativo. Não substitui a orientação de um advogado para o seu caso concreto.